Dá medo dar a mão pra quem não é você. Abraçar alguém mais baixo, ou mais alto que você. Assusta quando alguém me elogia e me quer pra si; se declara ou me chama pra sair. E não é você. Os coitados não sabem que eu cancelo todos os compromissos que invento, se você quiser sair comigo. Se você me liga, eu digo sim, estando de pijama, com o cabelo pedindo um banho, com as unhas por fazer. Logo você, meu melhor amigo, que foi meu primeiro namorado e que me largou, recebe mais confiança de minha parte do que qualquer outro cara. Você abriu fendas no meu peito, e é por ela que todos os interessados em ocupar tua vaga acabam caindo: só sobra você. Por mais errado e prejudicial que você seja, ainda é melhor que qualquer babaca que não vai deixar um chocolate no meu estojo, como você já fez.
Quando você me deixa em casa, depois de mais um encontro amigável, fico revirando na cama querendo saber se você chegou bem em casa; depois acordo com saudade, perguntando cerca de mil vezes para o cosmo se você também sente o mesmo. Claro, depois passamos semanas distantes, a poeira baixa, a vida segue, e depois, lá na frente, a gente se pexa de novo, pra não entender mais nada. Longe é suportável, eu penso, mas perto, intolerável. Fazemos mais carinho um no outro do que esses casais de namorados que desfilam por aí, porém sem beijos, troca de saliva. Você sabe a senha que ativa os meus sorrisos e enxerga tudo que o meu silêncio conteve, mas meus olhos entregam; você me conhece bem demais pra não ser meu. Vi você rindo daquela piada que eu fiz e ninguém mais achou graça ou aceitando qualquer ato impulsivo meu com total displicência e em minha cabeça você parece ideal pra mim, mandado por Deus pra ser meu par. Parece tolo, besteira, coisa que quando a gente cresce some da cabeça e evapora do coração, mas hoje é real moço.
Vem então mais um cara, desses que querem se apaixonar por mim pra que os faça sofrer um pouco, e eu pergunto dessa vez pra você, mentalmente, quando a gente fica junto de novo e esquece essa palhaçada, brincadeira de mau gosto que fazemos um com o outro. Porque ficamos bem juntos; nos damos bem, fazemos bem um ao outro, desejamos um ao outro. Hoje a gente ainda se ama, mas joga fora, ao relento, e prefere seguir em frente. Então, será que Freud explica ter tanta sintonia, ser tão bom ficar junto, ser tão mágico e incrível, tão um do outro e não estar junto?
Confusos que somos, não queremos nos envolver. Bipolar como você é, tem dias que me quer, e outros que nem quer saber. Louca varrida que sou, me adaptei a esse ciclo de despedida e reencontro. Criei aquela ideia de amor quase-perfeito pra nós dois. Vai que eu perco o cara que me empurra na rua quando eu digo que o amo, mas depois pega na minha mão e dorme do meu lado? Ou que você perde a guria que diz que não quer mais nada contigo e na manhã seguinte, aparece pra ti ver - já que você e nada não ficam bem na mesma frase? E se a gente não brigar e se xingar, pra depois se abraçar e elogiar mais? Ou cantar uma música, desabafar, reclamar do mundo? E se a minha alma se sentir em casa com outro cara, o que você fará? Eu sei moço, eu sei que um tapa a carência do outro, já que ninguém me cuida como você, e ninguém mais se importa tanto contigo como eu, mas acho que é mais. Seguimos nesse ciclo viciante, e eu choro pra caralho com tudo isso. Não gosto de você não me amar mais, e do jeito como você se comporta: antes você se importava tanto, e hoje age com descaso. É você quem me joga no braço de tantos caras, que me rejeita como quem não quer mais a comida e manda o prato para outros. Você que me faz catar dentro de cada cara que eu encontro o que ele tem de bom, pra que sementes eu plante, minhas malas eu faça e pra dentro deles, me mude. Você é o problemático que não me quer hoje e não vive sem mim amanhã. Por isso tudo me sinto a mais idiota do planeta por procurar indícios de que nós dois combinamos mais do que feijão com arroz; de dizer pra mim mesma que acabou, e te ligar horas depois. Lembro do tempo em que todos que nos olhavam com cara feia não entendiam o que faziam juntos, eu me perguntava como conseguimos tanto tempo separados. Sinto saudade disso, vejo que eu e você mudamos, que seu sentimento mudou e que é hora de ir. Ando alguns passos e sinto falta de te carregar junto. É bobo moço, e eu mesma rio da minha cara, e acho tolice, daquelas tolices tipo porre, que na manhã seguinte passa, ou não passa, ou se repete. Sigo sorrindo, como se na minha vida só desse samba, mas você ainda é o pedaço que falta do final feliz, ainda é o intruso que permanece na minha cabeça. Você não é meu ex nem meu atual, é meu sempre e sendo assim, só posso esperar que com esse entra e sai de pessoas nas nossas vidas, nos mantenhamos presentes e especiais um na vida do outro; ao menos enquanto a amizade ainda nos enlaça, o carinho nos mantem por perto, as lembranças nos inflamam de saudade e a gente não enterra um amor que foi pra guerra mas não voltou vivo.

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