Ontem ele veio
me falar de amor. Era estranho ouvi-lo dizer tudo isso porque já não sabíamos
mais o que sentíamos um pelo outro e sabíamos, menos ainda, se era recíproco.
Nós dois tínhamos uma ligação, mas depois de ouvi-lo me deu uma vontade
incontrolável de quebrar laços. Quebrar laços… logo eu que sempre tive medo de
sair da rotina, de me afastar de pessoas, de perder alguém ou, simplesmente, de
permitir mudanças. Depois daquelas palavras eu me lembrava dos sorrisos e
brincadeiras e tinha vontade apenas de deixá-lo ir. Dizer que não sentia meu
coração batendo mais forte, o pouco que fosse, seria hipocrisia da minha parte.
Mas não compensava mais insistir em alguém que faz meu coração acelerar “o
pouco que fosse”. Eu já não queria mais viver de expectativas, porque sei o
peso que elas trazem… não queria viver baseada em nada que não viesse
acompanhado de taquicardia, sorrisos espontâneos e exagerados, gargalhadas sem
motivo, sorrisos e olhares que se entendem. Já não era tão difiícil imaginar
minha vida sem ele, sem os olhos dele sobre mim durante as noites, sem os seus
braços envoltos ao meu corpo em momentos de carência, sem seus lábios tocando
os meus quando as palavras insistiam em sair em momentos inadequados ou sem sua
companhia nas noites de insônia. Eu sei, seria ridículo dizer que o esqueci,
mas, os momentos que passamos juntos e suas palavras já não têm tanto efeito
mais sobre mim. Nossas vidas se descruzaram e, hoje, estamos prontos para
seguir em frente, sozinhos ou nao, sem receios e sem medos. Hoje é como se
nossas vidas fossem um rio, e nós como navegantes, podemos escolher nossos
destinos, apesar das correntezas prontas para nos derrubar. Talvez essas
correntezas não nos levem ao mesmo lugar, mas caso nos encontremos nas
entrelinhas da vida, farei gosto em relembrar, com ele, os nossos momentos mais
bonitos, inclusive este, movido ao desapego.

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